A Aventura de Um Imigrante em New York!

Manuel da Silva, agricultor, Mineiro do interior, nunca havia saído de sua cidade para algum lugar mais distante do que Belo Horizonte. Um dia movido pela vontade de progredir, resolveu apostar em uma nova empleitada para sua vida. Incentivado pelo grande número de amigos que se aventuravam rumo aos Estados Unidos, resolveu fazer o mesmo. Cuidou da documentação, sem muita noção do que precisava. Mas mesmo assim com algumas orientações, foi ao Consulado e conseguiu o Visto de Turista. Voltou à sua cidade e providenciou as passagens. Com uma quantia que havia tomado emprestado de um familiar e a venda de algumas vaquinhas, conseguiu juntar pouco mais de $2.000. Era suficiente para comprar a sua passagem e sobrar o suficiente para mostrar à Imigração em caso que eles pedissem para ver o que tinha de dinheiro. Assim, Manuel se organizou e marcou o dia do embarque para alguns dias depois. Restava uma preocupação. Ele nunca havia andado de avião. E, de repente, bateu um medo. Não sabia como agir dentro daquele pássaro de asas dura. Mas aos poucos, foi convencido de que andar de avião era mais seguro do que de carro. E, considerando essa hipótese, resolveu finalmente embarcar. Mesmo porque já estava tudo pronto para tal viagem.

 

E lá foi Manuel para a sua aventura em um mundo desconhecido. Em New York, já havia um grupo de amigos de sua cidade, e eles o receberam no Aeroporto. Foi uma festa a chegado do Manuel. Todos se confraternizaram e rumaram para a nova moradia. A uma hora de viagem.

No caminho havia um pedágio. Com duas opções de pagamento. Em moeda ou em dinheiro de papel. Só que entre eles, ninguém falava Inglês. O Motorista, Antônio José, escolheu uma das filas e não sabia que à máquina, à sua frente, só aceitava moedas de vinte e cinco centavos(quaters). Quando chegou a sua vez de pagar, ele tentou pagar com dinheiro de papel e não foi possível… ai o bicho pegou. Tentou por inúmeras vezes sem sucesso. Ao colocar o dinheiro na máquina, o vento dava e carregava o dinheiro de Antônio…  Depois de perder alguns dólares e o nervosismo bater, pois não sabia o que fazer. E também porque logo atrás do grupo de mineiros, vários motoristas já impaciente, buzinavam um após o outro. O grupo não sabia como sair daquela situação. Ai foi que apareceu um dos policiais, que trabalhavam na estação. Num sei que lá, num sei que lá, num sei que lá( o que você pensa que está fazendo)? __ perguntou o policial. Sem resposta… A coisa ficou ainda pior. Com medo que fossem denunciados para a Imigração, Manuel sugeriu. Vamos sair correndo! Não… e o carro?… respondeu um deles. Com muita dificuldade eles conseguiram se explicar e sair daquela situação embaraçosa. Manuel, já saiu dali muito assustado e pensando como seria a sua vida a partir daquele momento. Sem falar o idioma, longe da família e dos amigos!

Após alguns dias na América, Manuel encontrou um trabalho de dishwasher, em um restaurante Italiano. Lá também trabalhava Serafim, seu amigo e conterrâneo. Manuel nunca havia lavado um prato em sua vida, pois achava que isso era trabalho de mulher. Mesmo assim aceitou a empleitada*.
__Você não vai lavar nada, a máquina fará tudo. Você só tem que colocar os pratos dentro dela! __Máquina? que máquina? __ a dishwasher é uma máquina que existe em todos os restaurante. Ela faz o trabalho de várias pessoas ao mesmo tempo. Tentava lhe explicar Serafim, sobre o que ele precisava fazer no seu trabalho. __ eu quero ver como isso funciona… Não acredito que existe máquinas para lavar pratos! Assim começou a primeira ocupação de Manuel na América. Quando viu o funcionamento do aparelho, não acreditou!

Por algumas semanas, Manuel cumpria a sua rotina diária no restaurante. Mas apesar do bom dinheiro, não estava contente. Acostumado com a vida do campo, onde a labuta diária era pesada. Aquela nova vida de doze horas diárias fechado na cozinha do restaurante, estava sufocando Manuel. Assim ele o fez. Procurou um trabalho onde tivesse prazer. A vida já era difícil longe dos seus costumes. Queria colocar mais emoção no seu dia dia, pois não conseguia viver na cozinha do restaurante.

O idioma era a maior dificuldade que ele tinha para conseguir sair daquela rotina. Mas estava disposto a enfrentar qualquer situação. O ciclo de amizade havia crescido e através dele, encontrou um trabalho novo na Construção Civil. O dono da construtora era Italiano também. Precisava de mais mão de obra. e Abdias, que conhecia à Antônio, o qual chamou o Manuel para servente de pedreiro. Manuel Passou a ganhar ainda  mais do que no restaurante, o que o fez mudar de vida e de rotina. Se destacou logo nos primeiros dias na companhia. Tinha habilidade no manejo com as ferramentas. O Tony, seu patrão, gostou da forma como Manuel se portava no trabalho. Não perdia tempo com as suas tarefas e depois de três semanas, Tony aumentou o salário do novo ajudante. Manuel se empolgou e passou a trabalhar ainda mais duro. Tratou de aprender o que fosse possível dentro da companhia. Observando como funcionava os equipamentos, o material que se usava, etc. Depois de uns dois meses, Tony, promoveu manuel para Carpinteiro, aumentado mais uma vez o seu soldo.

Manuel naquele dia não se continha de alegria. Voltou para casa e ligou para a sua esposa, lhe contou as novidades. Prometeu que juntaria o dinheiro necessário para a construção de sua casa no Brasil, o mais rápido possível e voltaria para está com eles.

A vida continuava na América como Manuel havia planejado. A família era o seu pensamento durantes os dias duro de trabalho e o tempo passava como ele não planejou que acontecesse. 2 anos se foram como num passo de mágica e Manuel começou a gostar da nova vida. Já tinha o seu carro, era velho mas o levava e trazia de volta para casa todos os dias. Pensava ele nas conquistas que havia alcançado. Em Minas, nunca teve mais do que um Burrinho de carga e algumas vaquinhas que  pastavam na pequena propriedade rural do pai.

Um belo dia, final de tarde de sábado, em pleno verão do hemisfério norte, Manuel voltava do seu trabalho planejando em encontrar com os amigos e assar uma picanha e tomar aquela cervejinha gelada. Assim parou em um mercado e comprou uma caixa de loira gelada. Rumou pra sua casa dirigindo a sua nova conquista. Um chevrolet 1976 de 8 cilindros, tipo banheira que bebia mais gás do que Manuel e seus amigos juntos tomava de cerveja por semana. Não sabia ele que aquela tarde de sábado seria a sua primeira má experiência na nova terra, em 33 anos de vida. Manuel foi preso naquele dia de verão de 1987.

Assim ele nos contou o ocorrido… Estava voltando pra casa com minha cervejinha, pensando que aquele dia seria de um bom descanso, assando um churrasco e jogando Truco com os amigos. Estava na avenida principal a uns 5 quilômetros de casa e, de repente vi um carro da polícia logo atrás de mim com um tanto de luzes brilhantes que ascendiam e apagavam mudando de cor de azul para vermelha, sem parar. Aumentou pra dois, três e num piscar de olhos já tinha uns seis carros. Todos com as luzes acesas. Pensei que fosse alguma festa que eles estavam celebrando. Continuei dirigindo e depois de uns mil metros, numa baixada que a avenida fazia, avistei uns 20 carros da polícia, todos no meio da rua, fechando tudo e com todas as luzes acesas, parecia uma festa de São João.

Quando ví que eles estavam bloqueando a passagem, entrei na primeira rua para cortar caminho para chegar em casa mais rápido. Ai todos os que estavam atrás de mim, me seguiram e começaram a ligar as sirenes que faziam um barulho dos diabos. A 200 metros dali, mais um tanto de policiais em seus carros também bloqueando a passagem. Que diabo é isso?  __fiquei sem entender nada… parei e fiquei esperando eles saírem para eu passar. Foi ai que escutei uma voz no microfone falando alguma coisa, não entendi nada. Sai do carro e comecei a andar em direção aos policiais. De longe o policial falou __ num sei que lá, num sei que lá, num sei que lá, num sei que lá.__ Manuel era um cara cheio de alto astral. Não tinha tempo ruim com ele, pude perceber isso no dia em que ele dissertou sobre essa história. Aliás eu o conheci neste dia.

E ele continuou com a sua história para um grupo de pessoas. Alguns dos quais eram da mesma cidade. Maurício, que foi a pessoa que tirou Manuel da cadeia, não se continha de tanto rir. Eu fiquei imparcial pois achava aquilo tudo muito absurdo. Pensei que não passava de uma brincadeira do grupo, pois eu era o único que não era da mesma região em Minas Gerais.

__Continuo Manuel. Quando eu saí do carro, olhei pra trás e percebi que os policiais haviam fechado também a rua  atrás de mim. Uai… não é que eu estou sem saída daqui, pensou ele! Ao caminhar em direção aos carros da polícia, um saiu do seu carro e disse! num sei que lá, num sei que lá e num sei que lá__ fazendo sinal para que eu parasse ali mesmo. Fiquei imóvel e pensei que faria ali mesmo… Nunca tive tanto medo em toda minha vida. Em seguida vi sair policiais de todos os cantos daquela rua, como se fosse  formigueiro. O policial chegou perto e me empurrou-me contra o carro e me algemou como num passe de mágica. Nem senti. Ele podia ter me matado ali que não teria sentido dor nenhuma. Me jogou no banco de trás do carro, só podia ver a frente da rua através de umas brechas na tela que me separava do banco da frente. Aquilo já era uma prisão, além de ainda está algemado.

__Na delegacia, continuou Manuel, me jogaram em uma cela com grades de ferro e algumas câmeras de TV. Fiquei me assistindo na TV da cadeia __ foi a noite mais longa da minha vida. Pela manhã me veio um café da manhã bem gordo e depois fiquei esperando o que ia acontecer. O meu pensamento era que eles iam me mandar de volta para o Brasil. Lá pelas tantas, já no final de tarde do domingo, um policial que falava Espanhol veio falar comigo. Me senti muito aliviado porque ele me perguntou se tinha alguém que pudesse chamar pelo telefone. O melhor que a língua dele eu podia entender alguma coisa.

A polícia de Portcheste telefonou para o Maurício naquele domingo de verão de 1987 e por coincidência, eu me encontrava na casa dele naquele momento. Nos dirigimos até o Departamento de Polícia daquela pequena Villa do Estado de New York. Ao chegarmos a recepção, através das câmeras de monitoramentos da Delegacia, pudemos ver o Manuel em sua cela com apenas um pequeno banco suficiente para sentar-se e nada mais. O policial que nos atendeu, explicou todo o ocorrido e a razão da prisão do Manuel. Mas ao mesmo tempo informou que não se tratava de nada grave, mas que a sua prisão ocorreu porque ele não parou quando foi adivertido pelo policial na tarde do dia anterior. Neste caso, a polícia determinou um fiança de apenas $100 para a sua soltura, mas teria de se apresentar diante de um Juiz, em uma data que já estava pré-determinada. E assim levamos o Manuel de volta pra casa depois de mais de 24 de prisão. Ele estava triste, cabisbaixo e não falou nenhuma palavra em todo o trajeto de volta pra casa.

Depois deste dia só vi o Manuel mais umas 3 vezes, incluindo aquele reencontro onde ele descreveu todo o ocorrido. Já havia se passado algumas semanas e ele tinha superado todo o trauma da prisão quando nos brindou com uma tarde de muito rizo ao contar essa história com muito humor. Neste dia até pensei que estava fazendo um brincadeira com a  sua passagem pela polícia, já que eu não o conhecia. Mas era tudo verdade. Mais alguns encontros sempre no mesmo grupo de pessoas, todos imigrantes vindos da mesma região de Minas Gerais, o Manuel era sempre o mesmo um Palhaço, tudo para ele era motivo de brincadeiras. Sempre contando piadas e fazendo os outros rirem dele. Depois nunca mais encontrei com ele, pois todos foram tomando rumos diferentes e o Manuel se escafedeu. Vinte anos se passaram e por coincidência  do destino, em 2007 reencontrei aquela figura na casa de um amigo em comum. Ele estava ali com a sua filha que fazia aula de Piano na casa do Sergio e, claro que eu fiquei surpreso com a presença dele. A primeira coisa que me veio a cabeça foi a sua história de 20 anos atrás. Ele não me reconheceu, mas o fiz relembrar quando toquei no assunto. Você ainda lembra disso? __ foi a sua reação.

Manuel não resistiu aos encantos da América e mandou as passagens para a mulher e os filhos vir morar com ele em New York pouco tempo depois que toda essa história aconteceu. Teve mais uma filha por aqui e também deixou o emprego para começar o seu próprio negócio de carpintaria. Hoje é empresário do ramo da Construção Civil e nunca mais pensou em voltar a morar o Brasil. Os filhos cresceram e se formaram aqui. o Se negócio vai muito bem e assim a família do Manuel fincou raízes na América para fazer história.

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